Lélio de Toledo Piza e Almeida Filho

10/06/2026

O homem de duas paixões

Pode um fazendeiro tornar-se empresário, banqueiro e, depois, industrial? Sim, não só pode como essa é a história de Lélio de Toledo Piza e Almeida Filho, segundo presidente da Anfavea – e o segundo a ser reeleito: liderou a associação por dois mandatos consecutivos, de 1960 a 1962 e de 1962 a 1964.

Formado em direito pela Universidade de São Paulo (USP), Lélio de Toledo Piza e Almeida Filho (ou Lelito, para os mais próximos, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek) era nos anos 1940 sócio fundador das Organizações Novo Mundo, um conglomerado de empresas que atuava em vários setores, desde o financeiro até o imobiliário – não à toa o bairro Parque Novo Mundo, na Zona Norte de São Paulo, tem esse nome: foi sua companhia a responsável por realizar os primeiros loteamentos ali.

Sempre em sintonia com a modernidade, o Grupo Novo Mundo fundou em 1945 mais uma empresa, esta dedicada a distribuir no Brasil automóveis importados Studebaker. Em 1952 essa companhia se uniu a outra, a Equipamentos para Lavoura, Indústria e Transporte (ELIT) e assim nasceu a Veículos e Máquinas Agrícolas – mais conhecida por seu acrômio Vemag.

Lélio fez questão de participar ativamente da Vemag, e tornou-se dela o diretor-superintendente. A princípio a empresa montava em unidade no bairro do Ipiranga, em São Paulo, caminhões Scania-Vabis e tratores Massey-Harris-Ferguson, para entusiasmo de seu fundador.

Com a criação do GEIA, em 1956, Lélio de Toledo Piza e Almeida Filho abraçou a chance de a Vemag ir além, fabricando automóveis nacionais. O executivo foi à Alemanha e conseguiu fechar com o Grupo Auto Union (então pertencente à Daimler Benz) acordo de transferência de tecnologia. E então a Vemag, graças à agilidade e coragem de seu dirigente, foi a fabricante do primeiro automóvel nacional, a 19 de novembro de 1956, a “caminhonete” DKW Universal, mais tarde apelidada Vemaguet. Foi o pontapé inicial do desenvolvimento da indústria automobilística brasileira, quebrando todos os tabus e dificuldades daquela fase pioneira.

Lélio passou então a conviver com duas grandes paixões: a agricultura e os automóveis. A primeira era exercida na Fazenda Primavera, em Itatiba, no interior paulista (atualmente a área é um bairro do município, com o mesmo nome). Em 1957 ele conseguiu unir os dois amores: criou prêmio para reconhecer iniciativas de produtividade no campo, no qual o melhor agricultor levava um trator Ferguson 35 e o melhor engenheiro agrônomo uma Vemaguet, ambos produzidos pela Vemag.

Pela relação da Auto Union com a Daimler Benz, Lélio também fazia parte do conselho da Mercedes-Benz do Brasil. Em 1964 a Volkswagen comprou a Auto Union na Alemanha e, em 1967, a Vemag no Brasil. Com isso ele foi nomeado diretor vice-presidente da Volkswagen do Brasil, já do alto de sua experiência de dois mandatos à frente da ainda jovem Anfavea, entidade que ajudou a consolidar no cenário da indústria nacional.

Mas dali pouco tempo ele se despedia do setor automotivo, ao ser convidado pelo então novo governador de São Paulo, Abreu Sodré, para assumir a presidência do Banco do Estado (Banespa).

Lélio ainda atuou na Fiesp e foi presidente do Idort, Instituto de Organização Racional do Trabalho. Jamais abandonou suas duas grandes paixões, nem a fazenda nem os DKW: chegou a participar, em 2005, aos 90 anos, de um encontro de modelos antigos da marca em frente ao que restou da fábrica no Ipiranga, na hoje denominada Rua Vemag.

O segundo presidente da Anfavea faleceu em 2008, deixando dois filhos, sete netos, três bisnetos e o histórico slogan da Vemag: “Brasileiros produzindo veículos para o Brasil”.

Márcio de Lima Leite
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Luiz Carlos Moraes
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