Newton Chiaparini

10/06/2026

Duas metades que formam um inteiro

Newton Chiaparini teve trajetória diferenciada no comando da Anfavea: ele foi presidente por duas metades de mandato seguidas – o que, na prática, se constituiu como um mandato inteiro.

“Paulistano da gema”, nasceu no Ipiranga, em 1929, e estudou no bairro vizinho, Cambuci, no Liceu Siqueira Campos. E viveu por mais de quarenta anos na mesma região, no bairro da Vila Monumento.

Como era normal naquela época, começou a trabalhar cedo, aos 14 anos: office-boy da empresa Linhas Corrente. Logo depois chegou à General Motors do Brasil, no departamento fiscal, onde foi picado pelo “mosquitinho da indústria automobilística”, na qual viveria por praticamente toda sua carreira.

Ficou por 13 anos na GM, enquanto cursava a faculdade de Direito. Formado, foi trabalhar na Ford – onde viveria trajetória brilhante, que o impulsionou como um dos expoentes e líderes setoriais mais lembrados da história.

Wolfgang Sauer, ex-presidente da Volkswagen e um dos executivos mais respeitados de todos os tempos no Brasil, afirmou em seu livro de memórias: “O Newton aliava à sua inteligência e magnetismo pessoal uma bagagem invejável de conhecimento da indústria automobilística”.

Na Ford desde 1960, no departamento financeiro, já em 1964 Chiaparini assumia a diretoria jurídica – único brasileiro no alto escalão da empresa –, e em 1969 a diretoria de assuntos legais, à qual acumulou a de assuntos governamentais em 1972. Em 1983 foi

promovido a vice-presidente para assuntos legais e institucionais: primeiro brasileiro a ocupar uma vice-presidência na Ford local.

Desde então ele já atuava em pautas relevantes para o setor, e não apenas à empresa em que trabalhava. Foi um dos principais incentivadores da criação do programa federal Biefex, de estímulo à exportação, na primeira metade dos anos 1970 – um sucesso, alcançando US$ 1 bilhão em exportações de veículos em três anos (valores da época).

Na Anfavea, ocupava a vice-presidência desde o primeiro mandato de Mário Garneiro, em 1974. No terceiro mandato deste, iniciado em 1980, era o primeiro vice-presidente (já atuando, em várias ocasiões, como presidente em exercício).

Em abril de 1981 Mário Garneiro pediu demissão da VW, onde era diretor jurídico, e consequentemente deixou seu posto na Anfavea. Chiaparini assumiu e completou o mandato, sendo que, mais tarde, em abril de 1982, foi eleito presidente para o período seguinte.

Um de seus maiores desafios foi a popularização dos carros a álcool, solução 100% nacional para a crise internacional do petróleo vivida à época. Por representar uma novidade mundial, havia então muita desconfiança sobre o novo combustível. Em 1980 a participação dos modelos a álcool no total produzido foi de 22%, mas em 1981 o índice já caiu para 16,5%. Atento, Chiaparini foi decisivo e negociou com o governo federal melhores condições de preço para o biocombustível ante a gasolina, além de isenção de impostos para táxis. Deu certo: em 1982 o índice subiu para 28%.

Mas em junho de 1983 Chiaparini foi convidado a assumir a presidência da NEC do Brasil, empresa de telecomunicações. Aceitou e assim deixou a Ford e, consequentemente, a Anfavea. Desta forma, acabou por completar o mandato anterior e deixou o seguinte, o seu próprio, a ser completado, sendo substituído por outro nome de peso, André Beer.

Mas aquela “picada do mosquito” da indústria automobilística não tardaria a coçar. Chiaparini voltou em 1987, como diretor-executivo da Sabó, multinacional brasileira de autopeças. Passou a frequentar mais o Sindipeças, e Paulo Butori, seu presidente por mais de 20 anos, reconheceu: “O Newton era a pessoa a quem recorríamos quando procurávamos soluções nos momentos mais difíceis”.

Ele foi também vice-presidente da Fiesp e conselheiro do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

Newton Chiaparini permaneceu na Sabó, como conselheiro, até 2011, quando se aposentou. Faleceu em outubro de 2013, aos 83 anos, deixando quatro filhos, oito netos e um legado de determinação e exemplo.

Márcio de Lima Leite
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Luiz Carlos Moraes
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Antonio Megale
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