Mário Bernardo Garnero
10/06/2026
O pai do carro a álcool
O quinto presidente da Anfavea, Mário Bernardo Garnero, foi um dos mais longevos no cargo: liderou a associação por sete anos – foi eleito para a gestão 1974 a 1977 e reeleito duas vezes, nos mandatos 1977 a 1980 e 1980 a 1983, porém não chegou a completar o último.
Natural de Campinas (SP), Mario Garnero se mudou para São Paulo com a família nos anos 1950. Estudou no tradicional Colégio São Luíz e cursou direito na PUC-SP, formando-se em 1961.
Já neste período demonstrou grande capacidade de articulação e interlocução, conseguindo agregar personalidades de vários meios em um mesmo ambiente. Como presidente do centro acadêmico da universidade, trouxe para ciclo de palestras e debates ali nomes do gabarito de Carlos Lacerda, Leonel Brizola e Juscelino Kubitschek, com quem trabalharia logo após.
Em meados dos anos 1960 Mário Garnero casou-se com Ana Maria Monteiro de Carvalho, filha de um dos sócios do Grupo Monteiro Aranha, sócio da Volkswagen do Brasil (20% de participação, por ocasião da construção da fábrica da Via Anchieta). Logo foi trabalhar na Monteiro Aranha e passou a representá-la no board da Volkswagen, sendo nomeado, em 1970, diretor do departamento jurídico da fabricante de veículos – passando assim a responder pela VW junto à Anfavea. Em 1974 assumiria o posto de diretor de relações industriais, mesmo ano em que foi eleito presidente da associação. Nesta fase assumiu ainda a presidência da CNI, Confederação Nacional da Indústria.
Foram tempos muito difíceis. O chamado primeiro choque do petróleo, em 1973, quadruplicou o preço do barril, pressionando fortemente a balança comercial brasileira, vez que o Brasil importava gasolina e diesel.
Em busca de solução interna, o governo federal criou em 1975 o Próalcool, programa de desenvolvimento de um biocombustível capaz de substituir a gasolina. Após avanços técnicos, em 1979 já havia possibilidade de lançar comercialmente o álcool, mas havia muitas vozes contrárias, inclusive da Petrobras.
O passo definitivo foi dado com a assinatura do Protocolo de Produção de Veículos a Álcool, em 19 de setembro de 1979, onde vários elos da cadeia se comprometeram a difundir o uso do combustível, sendo o principal deles as fabricantes de veículos. Mário Garnero foi fundamental neste processo, e por suas ações – e por ter assinado o documento como presidente da Anfavea – foi apelidado por Mauro Salles, jornalista e publicitário, o “pai do carro a álcool”.
O então ministro da Indústria e Comércio, João Camilo Pena, considerou anos depois Garnero como “empresário ativo que percorre salões no mundo todo e tem liberdade para conversar com poderosos das mais diferentes vertentes, desde Lula a Bill Clinton. Isso, é claro, influiu em muitos acontecimentos”.
Para Luís Nassif, jornalista, Mário Garnero “tornou-se, de fato, um dos brasileiros mais bem relacionados do planeta”.
Por seu perfil audacioso, Garnero também não escapou de polêmicas. Uma delas foi sua própria saída da VW, e consequentemente da presidência da Anfavea, em abril de 1981, durante seu terceiro mandato. A situação econômica se agravava, e com a chegada da recessão a VW anunciou que dispensaria dois mil empregados – naquele momento a fabricante dominava sozinha 40% do mercado e era uma das maiores e mais importantes empresas do país; a iniciativa, decerto, acabaria por abalar toda a já frágil economia nacional.
Garnero não pensou duas vezes e pediu demissão da empresa, com direito a coletiva à imprensa e comunicado oficial, posicionando-se contrário às demissões.
Ao despedir-se do setor automotivo, Mário Garnero assumiu o comando de sua própria empresa, a Brasilinvest, na qual se mantém até hoje. Atuou em diversos segmentos, desde informática e telecomunicações a empreendimentos imobiliários, passando por instituições bancárias.
Também fundou e presidiu o Fórum das Américas e a Associação das Nações Unidas-Brasil. Atualmente é ainda colunista da revista Forbes Brasil.